A decisão de eliminar a figura da administradora profissional para centralizar a gestão nas mãos dos moradores costuma nascer da busca por cortes imediatos no orçamento condominial. A promessa é clara: reduzir a taxa de serviço mensal e otimizar os gastos ordinários através de um controle mais próximo. No entanto, a transição da gestão terceirizada para o modelo autogestionado exige uma análise rigorosa das responsabilidades que passam a recair, sem filtro, sobre o síndico eleito.
Ao assumir a autogestão, o síndico deixa de ser apenas um fiscalizador para se tornar o executor direto de todas as obrigações legais, trabalhistas e fiscais. O principal risco reside na falta de conhecimento técnico sobre a complexidade das normas que regem o ambiente predial.
A autogestão coloca o síndico em uma posição de vulnerabilidade jurídica acentuada. Em um modelo profissional, a administradora responde por falhas operacionais e omissões contábeis. Quando o síndico atua sozinho, não há essa camada de separação. Se houver uma falha no pagamento de uma conta de energia ou no recolhimento do FGTS dos funcionários, a responsabilidade civil recai sobre a figura do gestor eleito, que pode ser questionado judicialmente por condôminos em assembleia ou por terceiros prejudicados. A falta de um sistema de controle de contas unificado, comum em empresas do setor, muitas vezes torna a rastreabilidade financeira um labirinto, dificultando a prestação de contas transparente.
Antes de votar pela dispensa de uma administradora, é necessário que o corpo diretivo responda a questões operacionais básicas. O condomínio possui alguém com disponibilidade real de tempo para tratar de burocracias diárias? O síndico eleito compreende a diferença entre gestão de caixa e contabilidade? Existe um fundo de reserva robusto para absorver eventuais multas decorrentes de erros administrativos iniciais? A economia gerada pela dispensa da taxa mensal deve ser confrontada com o custo do tempo despendido pelo síndico e o risco potencial de erros operacionais. Em muitos casos, o valor que se acredita estar economizando é rapidamente consumido por retrabalhos ou contratações pontuais de suporte para sanar falhas.
A transição para a autogestão demanda um rigor que vai muito além da simples redução de custos. Se o objetivo for apenas a economia financeira, o risco de exposição a passivos pode transformar uma medida de austeridade em um pesadelo administrativo para quem aceita o cargo.